segunda-feira, 21 de março de 2011

A poesia do amor será outra, ditam os tempos moderníssimos



A poesia do amor será outra, ditam os tempos moderníssimos. Será, mais ou menos, assim: “João ama Teresa/que ama Raimundo/que ama Maria/que ama Joaquim/que ama Lili/que ama todo mundo”. Para a psicanalista Regina Navarro Lins, autora de dez livros sobre as milenares – e polêmicas – questões do amor (entre eles, o best-seller A Cama na Varanda), “a ideia de que um único parceiro deva satisfazer todos os aspectos da vida pode se tornar coisa do passado”.


Nesta entrevista, feita por e-mail, Regina coloca um pouco de pimenta nas relações amorosas. Ou melhor, nas tradições sobre a sexualidade. “Reformular as crenças a respeito do amor e do sexo deveria ser o objetivo de quem quer viver com mais prazer”, defende em conversas e escritos e pelo Twitter (@reginanavarro). Como psicanalista ou como mulher, acredita que “é preciso descomplicar o sexo”. E reafirma, sem pudores: “O principal a ser reformulado é a ideia equivocada de que quem não ama não sente desejo de fazer sexo com mais ninguém”.


O POVO - Se Eu Fosse Você... e A Cama na Rede reúnem assertivas dos internautas, expostas no site Cama na Rede, sobre complexidades do relacionamento amoroso. Após vários anos de consultório e dilemas das mais diversas idades (dos 13 aos 80 anos), o que ainda lhe surpreende na condução das relações afetivas-sexuais, atualmente?

Regina Navarro Lins - Num primeiro momento, eu poderia responder que me surpreende ainda haver moralismo e preconceitos. Mas na verdade isso não causa estranheza, afinal, são dois mil anos de repressão da sexualidade, isto é, desde que o cristianismo se instalou no Ocidente. Você já reparou que todo xingamento tem uma conotação sexual? Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. Dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço. Por conta de todos os preconceitos, se vive como se sexo não existisse; ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto. A ideia de que há no sexo algo de pecaminoso é absurda, causando sofrimentos que se iniciam na infância e continuam pela vida afora. Não é de admirar, portanto, que, apesar de toda a liberação, tanta gente renuncie à sexualidade ou que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura seja de tão baixa qualidade. Na maioria das vezes ela é praticada como uma ação mecânica, rotineira, desprovida de emoção, com o único objetivo de atingir o orgasmo o mais rápido possível. Resulta daí ser o desempenho bastante ansioso, podendo levar a um bloqueio emocional e a vários tipos de disfunção, como impotência, ejaculação precoce, ausência de desejo e de orgasmo, sem falar nos casos de enfermidades psíquicas. As mentalidades estão mudando, mas a maioria das pessoas ainda sofre com seus desejos, fantasias, medos, culpas. É preciso descomplicar o sexo, afinal, estudos científicos comprovam cada vez mais a importância do sexo realmente prazeroso para a saúde física e mental. Uma das perguntas do livro A Cama na Rede ilustra bem isso: 95% das pessoas declararam que existe algo no sexo que gostariam de experimentar.

OP - O que lhe faz acreditar que o futuro das relações amorosas é “bissexual, polígamo,sem pares”?

Regina - Ao longo da história, sempre foi muito bem definido o que é feminino e masculino. Para corresponder a isso, cada um tem que rejeitar em si aspectos que são considerados do outro sexo. Homens devem ser fortes, corajosos, agressivos, mulheres devem ser dóceis, emotivas e delicadas. É evidente que homens e mulheres têm todos esses aspectos. Há uma tendência agora a se desejar ser o todo, a integrar os aspectos considerados masculinos e femininos da personalidade. Daqui a algum tempo, é possível que a escolha do objeto de amor não seja feita segundo o sexo, mas segundo as afinidades. Pode ser até que a bissexualidade venha a predominar. Acredito que menos pessoas vão desejar se fechar numa relação a dois e mais gente vai optar por relações múltiplas. Alguns placares do livro A Cama na Rede são surpreendentes, como o da pergunta “Você gostaria de fazer sexo a três? Por quê?”. Esperava que muitos responderiam sim, mas nunca pensei que o percentual chegasse a 77%. O anonimato facilita dizer o que se deseja e não se tem coragem de revelar aos outros. Atendo no consultório casais aparentemente conservadores, com filhos pequenos, que me contam que nos fins de semana vão a casas de swing e fazem sexo com outras pessoas. Acredito ser uma tendência.

OP - A senhora prevê, para gerações próximas, o fim do “amor romântico” e a legitimação do “poliamor”, a nova estrutura familiar, sexo virtual, a diminuição progressiva da fidelidade. Seriam, digamos, adaptações naturais da espécie à evolução dos tempos. E isso vai ser bom?

Regina - Estamos no meio de um processo de profunda mudança das mentalidades que se iniciou nas décadas de 1960/1970, com o advento da pílula anticoncepcional e os movimentos de contracultura do período. O amor, assim como a sexualidade, é uma construção social. Em cada época se apresenta de uma forma. É completamente diferente o amor vivido na Grécia clássica (V a.C.), na Idade Média, no século XVIII, no século XIX, no século XX. Há menos de 50 anos o sexo foi, pela primeira vez na História, dissociado da procriação e se aliou ao prazer. As mulheres se libertaram da preocupação constante de uma gravidez indesejada. Isso está transformando completamente as relações amorosas/sexuais; novos anseios surgem. Com 37 anos de consultório como psicanalista, palestras, coluna em jornal, rádio, não tenho dúvida que o amor e o sexo estão entre as maiores causas do sofrimento humano, justamente, pelos modelos repressores impostos. O que observo hoje é que, apesar do sofrimento, muitos se agarram aos modelos tradicionais, porque o novo assusta, o desconhecido gera insegurança. O grande dilema no amor hoje se situa entre o desejo de simbiose (de se fechar numa relação a dois) e o desejo de liberdade.

OP - A propósito, o que essa “evolução dos tempos” - e, consequentemente, das relações - vai exigir das pessoas, emocionalmente falando?

Regina - Quando aponto as tendências para o futuro, é comum os jornalistas me perguntarem com tom de desconfiança: “A nossa sociedade está preparada para isso?”. Aí proponho uma viagem no tempo. Imagine que você está nos anos 50/60 e alguém lhe diz: “Daqui a algumas décadas as moças não vão mais se casar virgens”, ou então, “Num futuro próximo a separação entre o casal se tornará comum”. Todos lhe olhariam com incredulidade e lhe diriam que a sociedade não estava preparada para isso. Algumas décadas depois, você constata que a virgindade não é mais um valor, e que a separação não é mais uma tragédia como era antes. O fato de as mudanças serem lentas, não vai pegar ninguém de surpresa. Freud dizia que existem duas formas de o ser humano buscar a felicidade: visando a evitar a dor e o desprazer ou a experimentar fortes sensações de prazer. Infelizmente, a maioria ainda se encolhe e apenas evita o desprazer. Reformular crenças a respeito do amor e do sexo deveria ser o objetivo de quem quer mais prazer.

OP - Será um processo diferente para homens e mulheres, essa adaptação?

Regina - Quando o movimento feminista ganhou espaço, os homens cruzaram os braços e ridicularizaram as mulheres que lutavam pelo fim da opressão. De algumas décadas para cá, eles se deram conta que o sistema patriarcal – que está entre nós há cinco mil anos – não oprimiu somente as mulheres. Eles também têm do que se libertar. Afinal, tentar o tempo todo corresponder ao ideal masculino da sociedade patriarcal – força, sucesso, poder, coragem, ousadia, nunca falhar – requer um esforço sobre-humano. Os homens estão exaustos. Eles estão tendo que se adaptar a novos valores, que os deixam bastante inseguros na relação com a mulher. O papel da mulher construído no século XIX, e que ainda aparecem resquícios em muitas delas – mulher não tomar a iniciativa, não mostrar que gosta muito de sexo, só fazer sexo se existir amor, etc. -, está mudando. Os homens que já se libertaram do mito da masculinidade, ou seja, não aderem aos valores machistas, estão em vantagem em relação aos outros.

OP - O que seria, na sua concepção, uma “mulher bem resolvida” no quesito amor?

Regina - Seria a mulher autônoma. Ela olha com novos olhos para o mundo, o amor, o sexo, o homem, a mulher, sem estar presa aos condicionamentos que tanto limitam as pessoas. Tem coragem de ser ela mesma na sua totalidade, e não renuncia a partes do seu eu tentando corresponder ao que dela se espera. Se sente livre para expressar todos os aspectos de sua personalidade, mesmo os considerados masculinos pela nossa cultura, como força, decisão, ousadia. Na relação amorosa, não se preocupa em se submeter às exigências sociais do que é aceito ou não para uma mulher e vive o máximo possível em sintonia com seus próprios desejos. A autonomia não é fácil de ser alcançada. Entretanto, cada vez mais mulheres questionam a suposição da nossa cultura de que a verdadeira felicidade se equipara a estar envolvida com um homem. Isso é bom sinal.

OP - A senhora difere relação extraconjugal e traição. Qual a diferença, na prática?

Regina - Para a grande maioria não tem diferença. Para mim a diferença é que a palavra “trair” tem conotação negativa, como algo ruim. Afinal, trair alguém é muito sério mesmo. O que não se aplica a uma relação extraconjugal, que é algo bastante comum. No livro A Cama na Rede, 72% responderam que já tiveram relações extraconjugais e explicaram seus motivos. Quando se fala em relações extraconjugais geralmente são apontados problemas emocionais, insatisfação ou infelicidade na vida a dois. Ninguém fala o que me parece mais óbvio: embora haja insatisfação na maioria dos casamentos, as relações extraconjugais ocorrem, principalmente, porque as pessoas gostam de variar. O casamento pode ser plenamente satisfatório, do ponto de vista afetivo e sexual, e mesmo assim as pessoas terem relações extraconjugais. Penso que está mais do que na hora de as pessoas refletirem sobre essa questão e deixarem de fazer pactos que não se cumprem, como o de exclusividade. Em vez de nos preocuparmos se nosso parceiro (a) transou com outra pessoa, deveríamos apenas responder a duas perguntas: “Me sinto amado (a)? Me sinto desejado (a)? Se a resposta for positiva, ótimo. O que o outro faz quando não está comigo não é da minha conta, não me diz respeito. Não tenho dúvida que assim as pessoas viveriam muito melhor.

OP - A novidade, nesse futuro que se anuncia, seria que as mulheres vão manter relações extraconjugais sem pudores? E que os homens aceitariam melhor essa realidade?

Regina - Apesar de nosso tabu cultural contra a infidelidade, são muito comuns as relações extraconjugais. Todos os ensinamentos que recebemos desde que nascemos – família, escola, religião – nos estimulam a investir nossa energia sexual numa única pessoa. Mas na prática uma porcentagem significativa de casados compartilha seu tempo e seu prazer com outros parceiros. Um dos pressupostos mais aceitos em nossa sociedade é o de que o casal monogâmico é a única estrutura válida. Na verdade, nossa cultura coloca tanta ênfase nisso, que uma discussão séria sobre o assunto dos relacionamentos alternativos é muito rara. As sociedades que adotam a monogamia têm dificuldades em comprovar que ela funciona. Ao contrário, parece haver grandes evidências, expressas pelas altas taxas de relações extraconjugais, de que a monogamia não funciona muito bem para os ocidentais. Uma vez que nós nos damos tão mal com a monogamia, outras estruturas de relacionamento, livremente escolhidas, também devem ser consideradas. Suponho que as pessoas irão perceber que fidelidade não tem nada a ver com sexualidade.

OP - Nesse cenário ainda em esboço, o sexo virtual é um dos protagonistas da nova novela das relações. O mundo virtual das relações irá se sobrepor ao real – ou já se sobrepõe?

Regina - Por enquanto, não vejo o sexo virtual substituindo o real, mas não dá para garantir que isso não ocorrerá no futuro. Não sabemos o que irá acontecer com a evolução dos cybergames. Será que as pessoas não irão preferir um bom orgasmo virtual a fazer sexo ao vivo? O sexo virtual é uma grande novidade, mas muitos ainda o desvalorizam. Os conservadores, que não conseguem aceitar nada que fuja aos padrões tradicionais, afirmam que as pessoas estão se relacionando com a máquina, que estão fugindo de uma relação verdadeira, etc. Mas isso não é verdade. Muitos, que não estão fugindo de nada, estabelecem relações amorosas virtuais e também fazem sexo dessa forma. O fato de não haver contato físico não significa que do outro lado não exista uma pessoa que interage, sente e se emociona. Os amores virtuais não devem ser entendidos como incompletos. É apenas diferente.

OP - A senhora faz um recorte do casamento (tradicional, até que a morte os separe) como “uma relação fechada, onde só participavam a possessividade, o controle e o ciúme”. Então, casamento é isso, ou melhor, será fatalmente, só isso com o passar do tempo?

Regina - Penso que um casamento pode ser ótimo, mas para isso é necessário reformular as expectativas alimentadas a respeito da vida a dois, como, por exemplo, a ideia de que o amado é a única fonte de interesse; que haverá complementação total, que cada um terá todas as suas necessidades atendidas pelo outro. O principal a ser reformulado é a ideia equivocada de que quem ama não sente desejo de fazer sexo com mais ninguém. Essa crença gera muito sofrimento desnecessário, porque quando se descobre uma relação extraconjugal, a pessoa imagina que não é amada. No livro A Cama na Rede, 72% dos internautas disseram que, com o tempo, o tesão pelo parceiro (a) diminui. Geralmente, num casamento busca-se muito mais segurança que prazer. Mas acredito que o fator principal para a falta de tesão é a exigência de fidelidade. A certeza de posse e exclusividade leva ao desinteresse, por eliminar a sedução e a conquista. É comum o desejo acabar no casamento independente do crescimento do amor e de sentimentos como admiração, companheirismo e carinho.

OP - O amor, então, passará a ser mais individualista? Isso não iria de encontro à natureza do amor (de ser mais condescendente...)?

Regina - No momento, no Ocidente, vivemos sob o mito do amor romântico, que prega a fusão total entre os amantes e a ideia de que os dois se transformarão num só. Agora, a busca da individualidade caracteriza a época em que vivemos; nunca homens e mulheres se aventuraram com tanta coragem em busca de novas descobertas, só que, desta vez, para dentro de si mesmos. Cada um quer saber quais são suas possibilidades, desenvolver seu potencial. Hoje, as potencialidades de cada um adquirem grande importância, e se espera que cada parceiro contribua para o crescimento do outro. Um amor baseado na amizade e no companheirismo está surgindo. Até um tempo atrás havia a ideia de associar o amor a sacrifício. Felizmente, isso está mudando.

2 comentários:

Cleody disse...

Concordo com todas as declarações feitas por Regina Navarro. Vejo o mundo com novos olhos em relação ao amor, o sexo, o homem e a mulher. As mudanças estão ocorrendo para que as mulheres não sejam condicionadas aos limites impostos pela sociedade. Elas gradativamente quebram as amarras e buscam sua independência sexual.

Israel França disse...

Realmente você é o cara que vende lenços... Gostaria que escrevesse para o meu blog, não é remunerado, é apenas um projeto que tenho parecido com o Recanto das Letras.